Rafael Bordalo Pinheiro

O HOMEM E O SEU CONTEXTO

Rafael Bordalo Pinheiro é uma personalidade peculiar. Foi, sem dúvida, marcado pelo ambiente artístico da casa paterna, sendo que o seu pai Manuel Maria Bordalo Pinheiro, era funcionário do Estado, bastante modesto, e, simultaneamente, pintor sem grande qualidade mas muito entusiasmo. Columbano tem alguns belos desenhos que evocam os serões domésticos com gatos, o animal eleito de Rafael, e muitos desenhos à mesa, à luz de candeeiro.

A irmã mais velha, Maria Augusta, foi a mãe de família depois da morte prematura da verdadeira. Era exímia em bordados e rendas que muitas vezes expôs. Foi a grande protectora de Columbano. Foi certamente uma burguesa digna, discreta e aquietada. Columbano pintou-a diversas vezes, nomeadamente na notável Luva cinzenta do Museu do Chiado.

O mano Columbano, um dos mais novos da vasta prole, é O Pintor do Drama Português como a geração de 70 o traçou: desistente como o Jacinto do Eça de A cidade e as Serras, metáfora da geração que conheceu a civilização (era Paris para todos eles, como para todo o mundo de então), que, quase com raiva, quis que Portugal tivesse o mesmo brilho, e, afinal, acabou a cantar o atraso do campo e a inteireza moral das gentes, os excessos da culinária elementar (a canja e as favas de Tormes!) e a felicidade de não existir telefone.

Essa foi a geração que depois de ruidosamente promover as Conferências do Casino, (proibidas pelo governo por serem revolucionárias e anti-católicas, facto que Rafael Bordalo Pinheiro explorou à exaustão) para trazer a estética moderna a Lisboa, vinte anos depois, em 1890, se auto designou por Vencidos da Vida.

Tendo em conta a personalidade das principais figuras culturais de então, Rafael Bordalo Pinheiro destaca-se pela modernidade militante, pelo optimismo visceral e pela tranquilidade com que sempre viveu a sua agitada e nada fácil vida.

No entanto, ele é saudavelmente um desiludido com as pessoas – que, para ele,  todas são corruptíveis – e, sobretudo, com as instituições que, mesmo depois das reformas, regressam ao mesmo: arrogância e ignorância.

A História é um palco em que a intriga é sempre a mesma. Delineia-a como comédia e farsa, não como tragédia. Usa o riso para provocar e agredir mas não para curar o que não tem cura.

Entende o atraso do país, a sua sebastiana megalomania, a sua preguiça e trafulhice e está sinceramente convencido que não tem cura. Descrê do Rotativismo monárquico (cujos podres conheceu como ninguém) mas não é grande entusiasta da República. Sabe que Portugal será sempre um peão, ou uma bola de sabão a desfazer-se nas mãos interesseiras de John Bull ou do Kaiser.

Este é o contexto da criação do Zé Povinho, esperto e matreiro, sem moral nenhuma: se pudesse trepava para as costas dos que o cavalam a ele. Não gosta de trabalhar e prefere resignar-se do que a combater. O manguito é o seu gesto filosófico perante os desacertos do mundo.

Esta descrença não foi para Rafael Bordalo Pinheiro um estado de alma, antes uma espécie de filosofia social, ancorada na ciência do seu tempo dominada pelas teorias de Darwin e a morte de Deus.

Por isso ele foi tão diferente dos seus contemporâneos artistas como ele.

Trabalhando em jornalismo, ele amava as máquinas e as suas novas possibilidades de edição. Amava trabalhar em conjunto, improvisar, colar-se na cadeia de produção em lugar estratégico, dominando e intervindo em todas as fases.

Usou a arte como sistema complexo e múltiplo de comunicação, misturada e intensificada pelo texto.

Homem do seu tempo, apaixonado pelo progresso técnico deixa-se envolver pelos projectos do mano empresário e embarca na aventura de fazer uma fábrica para renovar as artes populares do barro.

Age, nesta questão, como homem das Arts and Crafts, próximo de John Ruskin que talvez nem conhecesse.

Saliente-se a modernidade do projecto implantado numa pequena cidade de província, as Caldas da Rainha, e sonhando alimentar-se da alma e das técnicas de oleiros tradicionais. Mas, simultaneamente, propor-lhes outra coisa, mais urbana e mais erudita, a louça por si desenhada que é um misto de revivalismo romântico (pesado e barroquizante como a Jarra Bethoven) e de citações Arte Nova que então se afirmava em toda a Europa.

Não era ele o único artista do seu tempo que amava o povo e o conhecia. Mas talvez tenha sido o único que fez arte com ele (tipógrafos ou barristas), e considerou a arte não uma entidade transcendental mas um trabalho capaz de intervir social e economicamente.

Por outro lado, o relativo sucesso dos seus empreendimentos permite considerar que, apesar das diatribes, ele conhecia como poucos, e acreditava, nas possibilidades desenvolvimentistas do país.

Quem, vindo do meio artístico, encarou no seu tempo a arte como investimento, gestão e ampla divulgação? Trabalho em série, assumindo que a novidade se inscreve em continuidades profundas?

É aqui que reside a modernidade de Bordalo que o torna um exacto contemporâneo nosso. porque ele sempre olhou e esperou pelo futuro que ajudou grandemente a nascer nas áreas em que trabalhou.

Raquel Henriques da Silva